Crônicas do Trabalhismo Vivo

Crônicas Trabalhistas

O Mundo do Trabalho e o Mundo da Vida vividos nas ruas,
nos bairros e no cotidiano do povo baiano.

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Nota Editorial

As crônicas do Justamente News são textos literários produzidos com liberdade criativa. Algumas narrativas podem ser inspiradas em fatos, lugares ou personagens reais, enquanto outras incorporam elementos ficcionais, simbólicos ou imaginários. O objetivo é estimular a reflexão, a sensibilidade e o diálogo por meio da arte da palavra.

Crônica nº 14 Crônicas Trabalhistas

A sala de aula vazia

3 min de leitura
25 de julho de 2026 Por Ricardo Justo

A sala de aula tem um jeito curioso de falar. Mesmo vazia, ela nunca está em silêncio. As cadeiras permanecem no mesmo lugar. O quadro continua esperando o primeiro risco de giz ou a luz do projetor que anuncie mais uma manhã de descobertas.

Sobre a mesa, repousam livros, cadernos e planos de aula. Tudo parece pronto. E, no entanto, falta o essencial: a presença de quem transforma paredes em horizonte.

Nesta sexta-feira, professores da rede particular da Bahia interromperam suas atividades por 50 minutos. No sábado, estarão reunidos em ato público. Quem observa de longe talvez enxergue apenas números, horários ou uma negociação trabalhista. Eu prefiro enxergar pessoas.

Eu mesmo, quando lecionava filosofia e sociologia nos ensinos fundamental e médio, carregava a escola para dentro de casa. A aula termina, mas o trabalho continua! Há provas para corrigir enquanto a cidade dorme, aulas para preparar antes do amanhecer, preocupações que nenhuma folha de pagamento registra. O tempo do professor raramente cabe no relógio de ponto.

Há algo profundamente injusto quando uma sociedade repete, em todos os discursos, que a educação é o seu maior patrimônio, mas hesita em reconhecer a dignidade de quem a constrói todos os dias. Afinal, nenhum livro ensina sozinho. Nenhuma tecnologia substitui o olhar de quem percebe a dúvida de uma criança ou adolescente, antes mesmo de ela se transformar em pergunta.

Penso que uma sala de aula vazia nunca está realmente vazia. Ela se enche de perguntas que ainda não foram respondidas:

Pergunta quanto vale um mestre;
Pergunta que país desejamos construir;
Pergunta se compreendemos, de fato, que educar não é fabricar diplomas, mas cultivar mentes magistrais.

Talvez por isso esses 50 minutos tenham um peso que o relógio desconhece. Não são cinquenta minutos sem aula. São cinquenta minutos para lembrar que o futuro também precisa de voz.

Por que um povo começa a se empobrecer quando seus professores deixam de ser vistos como semeadores de esperança e passam a ser tratados apenas como custos de uma planilha.

E toda vez que uma sala de aula permanece vazia por um instante, ela nos convida a preencher um vazio muito maior: o da consciência de que não existe nação justa sem respeito aos seus educadores.

✦ Pensamento do dia

"Ensinar é um ato de coragem. E uma sociedade só amadurece quando aprende a reconhecer a coragem de seus mestres."

Crônica nº 13 Crônicas Trabalhistas

Entre a indústria da riqueza e a indústria do luto

3 min de leitura
18 de julho de 2026 Por Ricardo Justo

Há dias em que as notícias parecem estabelecer um diálogo sinistro entre si. Não porque desejem, mas porque a realidade insiste em colocá-las lado a lado, como se nos desafiasse a enxergar aquilo que preferimos ignorar.

A Bahia amanheceu celebrando um marco. A BYD, em Camaçari, alcançou a marca de 100 mil veículos montados em apenas nove meses. São milhares de empregos, famílias que reencontram esperança e a promessa de um futuro movido pela inovação. É o trabalho humano transformando aço, tecnologia e inteligência em caminhos para amanhã.

Mas o mesmo amanhecer trouxe outra notícia. A "Operação Vinculum" prendeu três policiais militares e investiga outros seis pela execução de dois jovens no bairro de São Marcos. Segundo o Ministério Público, não bastou tirar a vida: a cena do crime teria sido alterada para ocultar a verdade.

E foi impossível não me lembrar de Sócrates, aquele velho ateniense que fazia perguntas inconvenientes e desconcertantes, quando todos acreditavam possuir respostas convenientemente corretas.

Talvez ele nos perguntasse: afinal, o que chamamos de progresso? Será suficiente produzir carros elétricos se continuamos incapazes de preservar vidas humanas? Que desenvolvimento é esse que acelera nas fábricas, mas parece perder os freios quando chega às periferias?

A ironia socrática nasce justamente aí. Orgulhamo-nos das máquinas que aprendemos a construir, enquanto ainda tropeçamos na mais elementar das lições: aprender a conviver. Celebramos a engenharia que movimenta motores, mas seguimos impotentes diante da engrenagem invisível que transforma jovens em estatísticas.

Aqui, talvez caísse bem aquela célebre frase mais famosa de Charlie Chaplin sobre não sermos máquinas, publicada em seu antológico discurso final do filme O Grande Ditador (1940):

"Não se entreguem a esses homens desumanos — homens-máquina com mentes e corações de máquina! Vocês não são máquinas! Vocês não são gado! Vocês são homens!"

Nesse manifesto, Chaplin critica a ganância, a mecanização da vida e a frieza do mundo moderno, afirmando que a humanidade e a empatia devem estar acima da tecnologia e da fome desvairada pelo lucro.

Na Bahia, no mesmo território onde uma mão aperta parafusos, outra aperta gatilhos. E, entre essas duas indústrias, uma produzindo riqueza e a outra fabricando luto, permanece o cidadão comum. A mãe que espera o filho voltar para casa. O pai que sai antes do sol nascer em busca do sustento. A criança que se alegra com sua escola de tempo integral, o jovem que sonha com um emprego digno, o idoso que deseja ir à praça para se banhar ao sol, o trabalhador que acredita que amanhã pode ser melhor do que hoje.

Talvez a pergunta mais importante não seja quantos empregos conseguimos criar, nem quantas operações policiais realizamos. A pergunta é outra: que sociedade estamos construindo quando o direito de viver ainda depende do CEP onde alguém nasceu?

Como ensinava Sócrates, a verdadeira sabedoria começa quando abandonamos a ilusão de que já sabemos as respostas.

✦ Pensamento do dia

Nenhuma sociedade alcança o verdadeiro desenvolvimento quando o valor da vida humana é menor do que o valor de suas estatísticas. Emprego digno e segurança pública não disputam prioridades. São, juntos, os dois alicerces de uma civilização que deseja, de fato, chamar-se humana.

Crônica nº 12 Crônicas Trabalhistas

O jogo que se joga com luta e paixão

2 min de leitura
15 de julho de 2026 Por Ricardo Justo

Enquanto o mundo acompanha as semifinais da Copa, a Bahia joga um outro campeonato. Espanha, França, Argentina e Inglaterra duelam em campo. Aqui, a partida é diária: a disputa por um trabalho digno, por um salário que baste.

O Brasil caiu nas oitavas e está fora da Copa do Mundo de 2026. Jejum que se prolonga há 24 anos, ainda que seja menor do que o jejum de políticas públicas, que se arrasta desde que o país entrou na forma de governo republicana.

A Espanha chega à final com processo e planejamento, enquanto o trabalhador baiano chega ao fim do mês sem saber se o jogo vai virar. Seria cômico se não fosse trágico!

Essa máxima aplica-se perfeitamente em nossa realidade nacional: a estrutura social funciona como uma máquina de transferência de renda que cobra do pobre para subsidiar a manutenção dos privilégios do topo. É um roteiro de "San Martín" ou de "Robin Hood" às avessas que, em vez de defender os direitos dos mais pobres, asfixia o poder de compra da base social para garantir a acumulação de capital de uma minoria.

O que a Copa ensina? Time que não investe na base, não vence. Estado que não gera oportunidade elimina seu povo antes do apito final.

O jogo mais duro não é no gramado norte-americano. É na luta de quem acorda cedo e ainda assim insiste em manter a esperança por dias melhores.

✦ Pensamento do dia

Como expressa o poema indianista "I-Juca-Pirama", do poeta e teatrólogo brasileiro Gonçalves Dias (1823-1864): "Assim o Timbira, coberto de glória, guardava a memória do moço guerreiro, do velho Tupi. E à noite nas tabas, se alguém duvidava do que ele contava, tornava prudente: 'Meninos, eu vi!'"

Meninos, eu vi que o verdadeiro jogo não se vê na televisão — se vive na pele, com luta e paixão.

Crônica nº 11 Crônicas Trabalhistas

Do 2 de Julho ao Pacto pela Integridade: a liberdade que não para de marchar

2 min de leitura
13 de julho de 2026 Por Ricardo Justo

Ainda sobre as comemorações do 2 de Julho, data magna da Bahia, lembramos da figura de Odorico Tavares, que, com a sua ode ao 2 de Julho, celebra a Independência da Bahia e retrata a ocasião não apenas como um fato histórico, mas como um ato permanente de afirmação da liberdade.

Em sua escrita, Odorico Tavares sublinha que o povo baiano transforma memória em caminhada, fazendo do cortejo cívico um reencontro entre passado, presente e esperança de futuro.

O 2 de Julho deixa de ser uma data no calendário e torna-se uma consciência coletiva que continua marchando pelas ruas da Bahia.

Foi com essa vertente que na quarta-feira, 8 de julho, o Tribunal Regional da Bahia (TRE-BA), sob a presidência do desembargador Maurício Kertzman Szporer, reuniu 21 partidos políticos baianos para assinar o "Pacto pela Integridade nas Eleições 2026", evento que também contou com o "Acordo de Cooperação" firmado com o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA).

O documento estabelece compromissos concretos: transparência no pleito, combate a ilícitos eleitorais, cumprimento das cotas de gênero, acesso inclusivo ao voto e uso responsável da inteligência artificial. Além disso, foi inaugurada a "Sala da Democracia" como espaço permanente de diálogo entre a Justiça Eleitoral e as agremiações políticas.

O Partido Democrático Trabalhista (PDT), legenda pela qual me posiciono como pré-candidato a deputado federal pela Bahia, esteve entre os partidos que enviaram representantes ao chamado, assinando também o Termo de Compartilhamento de Boas Práticas, reafirmando o compromisso trabalhista com a lisura do processo democrático.

Esse pacto institucional encontra eco direto no meu "Pacto pela Vida", que venho construindo junto às comunidades religiosas de Salvador e outros municípios baianos. Se o TRE busca a integridade do processo eleitoral, o "Pacto pela Vida" busca a integridade da convivência humana, unindo segurança pública, fé e gestão de conflitos. Ambos nascem do mesmo princípio: só há democracia real onde há ética, transparência e respeito pelo outro.

Minha pré-campanha segue alinhada a essas diretrizes, cuja ênfase reflete a possibilidade de avançar na direção do consenso, para o enfrentamento dos desafios da propaganda eleitoral abusiva nas eleições de 2026, com ênfase na desjudicialização e na Justiça Restaurativa, porque integridade não se improvisa: se constrói com pactos, dentro e fora das urnas.

✦ Pensamento do dia

"Se Odorico Tavares viu no 2 de Julho a marcha eterna da liberdade, é preciso lembrar que toda geração deve conquistar sua própria independência. Ontem, contra o domínio colonial; hoje, contra a desigualdade, a exclusão e a perda da dignidade do trabalho. A história continua caminhando, porque a liberdade não é uma herança, é uma construção cotidiana. O voto íntegro é a alma da democracia; a Cultura de Paz, vivida no cotidiano do povo, é o seu destino manifesto."

Crônica nº 10 Crônicas Trabalhistas

Discutir o futuro com mentalidades ultrapassadas é como mandar telegrama numa conferência sobre Inteligência Artificial

5 min de leitura
2 de julho de 2026 Por Ricardo Justo

Existe um costume curioso no Brasil, especialmente no universo da política partidária e da gestão organizacional, com suas reuniões intermináveis: todo mundo adora falar do futuro. O futuro da educação. O futuro das cidades. O futuro do planeta. O futuro das próximas gerações.

O problema é que, enquanto o futuro segue sendo debatido com enorme entusiasmo pelos acadêmicos profissionais, teóricos de plantão e políticos de ocasião, o presente continua atolado em problemas que ninguém parece disposto a resolver.

Tomemos como exemplo aquele velho lixão de sua rua. Ele continua lá. Firme, resistente, democrático inclusive, recebendo diariamente toneladas de resíduos produzidos por gente que, curiosamente, costuma discursar sobre sustentabilidade em seminários climatizados, com direito a coffee break servido em copos descartáveis.

Lixão a céu aberto no Brasil

Lixão a céu aberto no Brasil — enquanto o discurso fala em sustentabilidade, a realidade acumula resíduos · Fonte: Epoch Times Brasil

Senadores discursando no Congresso Nacional

O eterno palanque: discursos sobre modernidade com práticas do século passado · Imagem gerada por IA

Parafraseando Al Gore, essa é "Uma Verdade Inconveniente!". O político, empresário e ambientalista norte-americano, que atuou como o 45.º Vice-presidente dos EUA, diria que discutir sustentabilidade apenas no campo da retórica virou uma espécie de esporte institucional contemporâneo.

Fala-se muito sobre "o que precisa ser feito", mas quase ninguém se dedica seriamente ao "como fazer". É exatamente aí que a boa política precisa entrar em cena, a partir de uma convicção objetiva: preservar o planeta não pode ser tratado como poesia ambiental para congressos internacionais. Precisa ser engenharia aplicada ao cotidiano dos bairros.

Por isso defendo um projeto concreto de transformação de resíduos sólidos em energia limpa, especialmente em regiões estratégicas dos Territórios de Identidade da Bahia, onde desenvolvimento econômico e preservação ambiental precisam aprender, definitivamente, a caminhar de mãos dadas.

Há algo profundamente irônico em nosso tempo. Vivemos numa era em que a humanidade desenvolve sistemas capazes de aprender sozinhos, algoritmos que antecipam comportamentos e máquinas que começam, inclusive, a simular aquilo que costumávamos chamar de pensamento. E, ainda assim, seguimos administrando problemas fundamentais da vida coletiva com a mesma criatividade burocrática do século passado.

Máquina de escrever vintage

A máquina de escrever: símbolo de um pensamento que o tempo superou

Inteligência artificial e o futuro da tecnologia

O futuro da Inteligência Artificial já é presente — enquanto certas mentalidades ainda mandam telegramas · Fonte: jesuscasso123.github.io

É quase como mandar um telegrama numa reunião sobre inteligência artificial.

E talvez Sócrates, o "Pai da Ironia", se estivesse caminhando hoje pelas praças de Salvador, interromperia uma conversa e faria apenas uma pergunta, como costumava fazer em Atenas: "Se vocês sabem tanto sobre o futuro, por que continuam repetindo as questões do passado?"

Porque essa parece ser uma das grandes ironias contemporâneas: desenvolvemos tecnologia de ponta, mas insistimos em governar com ideias enferrujadas; produzimos discursos sofisticados sobre inovação, sustentabilidade e transformação digital, mas, na prática, seguimos empilhando problemas como quem acredita que o tempo, por alguma generosidade cósmica, resolverá aquilo que a incompetência política se recusa a enfrentar.

No fundo, a ironia do "telegrama numa reunião sobre inteligência artificial" não está na tecnologia ultrapassada. Está nas mentalidades ultrapassadas.

Sócrates ensinava que o verdadeiro conhecimento começa quando alguém reconhece a própria ignorância. O drama de certas estruturas públicas e institucionais é justamente o contrário: acreditam saber exatamente o que fazem, mesmo quando os resultados demonstram diariamente que não fazem a menor ideia.

É o gestor público que fala em economia verde enquanto mantém lixões ativos. É o político que discursa sobre modernidade usando práticas políticas do século passado. É a instituição que organiza seminários sobre inovação sem perceber que a própria cultura organizacional interna rejeita qualquer mudança real.

Talvez o velho mestre ateniense — que chamava a si mesmo de "mosca enviada pelos deuses para 'picar' os atenienses e acordá-los da acomodação" — resumisse nossa tragédia contemporânea de forma simples: "Vocês não precisam de mais tecnologia. Precisam primeiro aprender a pensar."

Porque nenhuma sociedade avança apenas adquirindo ferramentas novas, se continua aprisionada por velhos hábitos mentais. Afinal, pouco adianta discutir inteligência artificial quando parte da inteligência humana continua sequestrada pelo medo de mudar.

E, convenhamos, há algo quase poético (embora tragicamente cômico) em ver pessoas discutindo o futuro com a mesma lógica de quem ainda acredita que progresso se faz via código Morse ou telex. É como se ouvíssemos Karl Marx vociferando do túmulo: "Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo".

E por falar em modificação, chama a atenção o momento político baiano pós-fechamento da janela partidária de 2026, quando deputados federais e estaduais trocaram de legenda sem perda de mandato. Mas será que essa modificação é acompanhada de disposição para pensar grande?

Já passou da hora de levar o debate sobre energia limpa, inovação tecnológica e economia verde para o centro das decisões legislativas. A Bahia não pode continuar sendo apresentada como território de potencial eterno, enquanto outros estados transformam potencial em desenvolvimento econômico real.

Temos inteligência, temos pesquisadores, temos gestores, temos territórios e temos capacidade de liderar essa transição. No fim das contas, política não se mede pela quantidade de discursos produzidos, mas pela coragem de apresentar projetos capazes de alterar a vida real das pessoas.

Porque visão sem execução costuma ser apenas um discurso bonito. E, para falar a verdade, o povo da Bahia já perdeu a paciência com discursos.

✦ Pensamento do dia

"Nenhuma sociedade avança apenas adquirindo ferramentas novas, se continua aprisionada por velhos hábitos mentais. Pouco adianta discutir inteligência artificial quando parte da inteligência humana continua sequestrada pelo medo de mudar. Política não se mede pela quantidade de discursos produzidos, mas pela coragem de apresentar projetos capazes de alterar a vida real das pessoas."

Crônica nº 9 Crônicas Trabalhistas

Um Samurai na Bahia: guardar a honra para não repetir a derrota

5 min de leitura
30 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Esta segunda-feira amanheceu diferente no Brasil, especialmente no bairro do Imbuí, em Salvador, Bahia. Nas televisões espalhadas pelos bares da Av. Jorge Amado, ao longo da Rua Jaime Sapolnik, na principal delicatessen da Rua Prof. Jairo Simões, bem como nas rodas de conversas improvisadas nas esquinas e nos grupos de WhatsApp que nunca dormem, o assunto era um só: o jogo do Brasil contra o Japão.

E como todo brasileiro carrega no peito essa estranha e bonita capacidade de transformar futebol em conversa sobre a vida, não demorou muito para que eu me pegasse pensando em algo maior do que o placar.

No início da tarde, que marcava o encerramento do ciclo das tradicionais festas juninas, caminhando pela rua Jairo Simões em direção à praça central do Marback, Imbuí, fui tomado por uma reflexão auriverde.

Talvez porque a Bahia tenha aprendido, há muito tempo, a conviver com culturas que chegam de longe e acabam fazendo morada definitiva em nossa identidade. Pouca gente percebe o quanto a cultura japonesa já faz parte da vida soteropolitana. A cultura nipo-brasileira está nas tradicionais celebrações promovidas pela comunidade nipônica no bairro de Brotas; nas artes marciais que ocupam academias populares em vários bairros da cidade; nos restaurantes orientais que hoje fazem parte do cotidiano de bairros como Imbuí, Pituba, Rio Vermelho e Caminho das Árvores. Está presente, também, nos jovens que aprendem mangá, anime, origami e até filosofia oriental como quem descobre novas maneiras de interpretar o mundo.

Salvador, que sempre foi esse grande encontro de civilizações, aprendeu cedo a dialogar com o Japão. E talvez seja justamente por isso que a vitória da seleção brasileira sobre a seleção japonesa me fez pensar numa diferença fundamental entre duas culturas políticas.

O povo japonês construiu, historicamente, valores profundamente ligados à disciplina, à memória coletiva e ao compromisso comunitário. O velho espírito do Bushidō, o código de honra dos samurais, ensina-nos algo simples e poderoso: quem carrega responsabilidade não pode esquecer o dever assumido.

E foi então que me lembrei de uma conversa nesse percurso entre a rua Prof. Jairo Simões para o conjunto Guilherme Marback, onde está situada a Associação Comunitária do bairro do Imbuí. Estava ali, na praça localizada em frente à USF Imbuí e ao CMEI Castro Alves, atrás do supermercado Assaí, ouvindo moradores falarem sobre aquilo que realmente pesa no cotidiano das pessoas: a violência que restringe a liberdade, a coleta de lixo irregular, ruas escuras que se transformam em territórios do medo, serviços públicos que parecem existir apenas no papel.

No meio da conversa, resolvi fazer uma pergunta aparentemente simples:

Grupo de moradores reunidos com Ricardo Justo

Comunidade do Bate-Facho no Imbuí — ação comunitária promovida em 2025

— Dona Janete… Seu Eduardo… vocês lembram em quem votaram para Deputado Federal, Estadual ou Senador na última eleição?

Dona Janete, moradora do Bate-Facho

Dona Janete — moradora do Bate-Facho no Imbuí

O que veio depois me marcou profundamente. Não foi exatamente silêncio. Foi algo muito mais inquietante. Os olhos de ambos procuravam respostas numa memória que parecia ter desaparecido. Uma tentativa sincera de lembrar nomes que, curiosamente, já não habitavam mais a consciência de quem os escolheu.

E ali, observando aquela cena, pensei numa dura contradição brasileira: somos um povo que lembra as escalações das seleções das Copas do Mundo, recorda gols históricos, conhece estatísticas de jogadores, mas muitas vezes não consegue recordar quem escolheu para decidir o próprio destino político.

E isso, sinceramente, não é um simples esquecimento. É sintoma de algo muito mais grave. É o retrato de uma democracia que começa a adoecer quando o voto deixa de ser consciência e passa a ser apenas ritual automático de apertar teclas no dia de votar.

Expliquei ali, aos moradores, algo que venho defendendo há anos como educador, pesquisador e político: "Quando alguém vota sem compreender o peso da própria escolha, acontece algo muito perigoso. É como entregar as chaves da própria casa a um desconhecido e esperar, ingenuamente, que ele cuide melhor do patrimônio do que o próprio dono."

A grande tragédia brasileira não é apenas votar errado. É votar sem compreender as relações políticas que sequestram o inconsciente coletivo. Sempre acreditei que a Educação Política talvez seja a ferramenta mais revolucionária que podemos oferecer ao nosso povo. Não basta apertar números numa urna, é preciso: entender o funcionamento do Estado; compreender as responsabilidades institucionais; fiscalizar mandatos; cobrar coerência daqueles em quem votamos.

Porque é exatamente isso que separa o verdadeiro representante público do velho personagem eleitoral, a "raposa política" — aquele político que aparece apenas de quatro em quatro anos, distribui promessas, ocupa temporariamente o imaginário popular e desaparece logo depois, deixando o povo exatamente onde sempre esteve: esperando.

Talvez devêssemos aprender algo com a filosofia japonesa: "um samurai jamais esquece o compromisso assumido". Já nós, brasileiros, muitas vezes, esquecemos justamente aqueles a quem entregamos o poder de decidir sobre a qualidade das nossas escolas, hospitais, segurança pública, transporte e futuro coletivo.

Na tarde desta segunda-feira, 29 de junho, dia em que se comemora São Pedro, ninguém saiu daquela praça do Imbuí sem uma resposta sobre os principais nomes de candidatos que realmente podem representar o bairro. Todos saímos com uma certeza inquietante.

O maior problema da democracia brasileira não está nas urnas. Talvez esteja no fato de que aprendemos a votar, mas ainda não aprendemos a lembrar das nossas escolhas políticas.

Ricardo Justo com moradores na rua da comunidade Moradores confraternizando com salgados na praça

Comunidade do Bate-Facho no Imbuí — mobilização comunitária

Ricardo Justo conversa com moradoras na praça

Ricardo Justo ouve as demandas das moradoras do Bate-Facho

Ricardo Justo na quadra do Imbuí com morador

Comunidade do Bate-Facho no Imbuí — ação comunitária promovida em 2025

Ricardo Justo em conversa com moradora Moradora do Bate-Facho

Diálogo nas ruas — escuta ativa como prática política

Ricardo Justo entrevistando morador

Ricardo Justo — Demandas da comunidade do Bate-Facho no Imbuí

Seu Eduardo, morador do Bate-Facho

Seu Eduardo, morador do Bate-Facho no Imbuí

A sentença final veio do Seu Eduardo: "Um povo que esquece quem escolheu corre sempre o risco de continuar entregando, repetidas vezes, o próprio destino a quem jamais esteve verdadeiramente comprometido com seu futuro. No Japão, a honra nasce da memória. No Brasil, talvez a democracia só amadureça quando o eleitor compreender que lembrar do nome daqueles que se colocam como representantes políticos também seja um ato de busca incessante pela honra, colocando o dever, a coragem e a justiça acima da própria vida e interesses."

✦ Pensamento do dia

"A democracia começa a enfraquecer no instante em que o voto deixa de ter consciência e se transforma em automatismo. Um povo que lembra gols históricos, mas esquece quem escolheu para governar seu destino, corre o risco de viver eternamente refém de decisões que nunca verdadeiramente tomou. Educação política não é luxo intelectual. É memória coletiva transformada em cidadania."

Crônica nº 8 Crônicas Trabalhistas

O Guarda-Roupas de Mazarino: a alfaiataria do silêncio e o figurino do poder

5 min de leitura
28 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

A geometria do poder, caro leitor, raramente se desenha em linhas retas. Ela prefere o arabesco, o ponto cego e a costura invisível. No teatro das vaidades que habitamos e que hoje ganha contornos de uma moderna "Crônica Trabalhista", observamos fenômenos que fariam os geômetras da Grécia Antiga questionarem a natureza do espaço e da substância.

Hoje eu despertei com aquela socrática ironia de quem finge não saber que a generosidade é a virtude dos reis. Mas, como Platão bem nos ensinou, a forma aparente não deve ser confundida com a essência; o que se aplica perfeitamente à minha sede de conhecimento.

Diante de uma boa xícara de café, enquanto a ironia socrática esvaziava as minhas certezas para fazer nascer esta reflexão, como quem observa o conteúdo da xícara se esvaziando do precioso líquido arábico, a dialética platônica me convidava a transcender a aparência sensível em direção à verdadeira natureza da virtude.

No tempo de Platão, um dos principais conflitos sociais versava sobre a concentração fundiária nas mãos de uma elite oligárquica e o empobrecimento e endividamento dos camponeses, levando o filósofo a defender que o bom governante deveria ser guiado pela sabedoria, pelo conhecimento do bem e pela capacidade de decidir em favor da coletividade.

Essa disputa social polarizou a sociedade ateniense e foi a grande motivação por trás das reformas de Sólon, que proibiram a escravidão por dívidas, e das reflexões políticas de Platão. O princípio central dessa visão é o bem comum acima dos interesses individuais, uma ideia que permanece relevante em qualquer debate sério sobre gestão organizacional e convivência social.

Para o criador do "Mundo das Ideias", quando um proprietário de terra, em um gesto de aparente desprendimento, "entregava" uma gleba a alguém recém-chegado de outras pastagens, ou "concedia" um lote a outro que estava há mais tempo, ele se perguntava se estaríamos diante de uma partilha justa ou de uma lição de alta costura política?

A história, essa mestra silenciosa, gosta de se repetir em sussurros. Marx escreveu sobre Hegel dizendo que o "Pai do Idealismo Alemão" afirmava que "todos os grandes fatos e personagens da história mundial ocorrem duas vezes", acrescentando: "a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa".

Quem conhece a saga do Cardeal Mazarino, sucessor do Cardeal Richelieu, sabe muito bem que ele entendia como poucos a anatomia do favor. Para neutralizar o altivo Duque de Beaufort (um rival que ousava brilhar mais que a coroa), Mazarino não o exilou, nem o aprisionou em masmorras frias. Ele fez algo muito mais cruel: ofereceu-lhe o solene cargo de "Guarda-Roupas do Rei".

Que honra! Supervisionar as sedas, os veludos e os botões do monarca, pensariam aqueles que gostam de "se fartar" nos seios do poder.

Na prática, Beaufort foi reduzido a um mordomo de luxo, um assistente de vestuário cujo prestígio político foi castrado pela própria nobreza do cargo. O favor era, em verdade, um cadafalso adornado de rendas. Beaufort vestia o rei enquanto Mazarino despia o Duque de qualquer influência real.

Ao olharmos para as concessões de hoje, pergunto-me, com uma dúvida metódica que causaria inveja a René Descartes: o que é um cargo político-administrativo, senão um vasto guarda-roupa quando a chave do cofre e o fio da estratégia permanecem em outras mãos?

E o que seria uma nomeação para liderar uma instituição com visíveis patologias organizacionais? Esse quinhão de terra política dado a um correligionário fiel não seria a honrosa tarefa de organizar os "cabides" para que os recém-chegados possam desfilar suas novas vestes?

Esse lote político assemelha-se ao que Émile Durkheim (filósofo francês, considerado o pai da sociologia) chamou de "anomia", para descrever a ausência de normas claras ou a perda de sentido das regras, gerando um estado de caos, perda de identidade e falta de engajamento das equipes.

A virtude do líder, dizem os filósofos desde Platão, está em saber que o poder não se "dá". O que se entrega é a forma; a substância, essa é retida pela mão que assina o decreto. Há quem receba cargos e imagine-se general, sem perceber que lhe foi entregue apenas a responsabilidade de polir as medalhas alheias.

É fascinante observar como a estética do favor pode ser, simultaneamente, um ato de acolhimento e uma sentença de imobilidade. Aqueles que chegam, seduzidos pelo veludo da honraria, talvez ainda não tenham notado que o tecido é pesado demais para quem pretende correr.

E o fiel escudeiro, orgulhoso de seu lugar na corte, pode estar apenas guardando a porta de um salão onde não foi convidado para sentar-se à mesa principal. Ele pode até se orgulhar do uniforme que veste e da importância que projeta aos olhos dos outros, mas, no fim das contas, está apenas servindo aos interesses de quem realmente toma as decisões.

Como Sócrates, sigo perguntando: quem é mais livre? O que recebe o presente ou o que se livra do peso de tê-lo? E como Platão, afirmo: o poder real não habita na nomeação, mas na capacidade de definir a moda que os outros serão obrigados a vestir. No fim, entre glebas e lotes, a política segue sendo a arte de vestir Beaufort para que Mazarino possa governar nu, sem ser notado.

✦ Pensamento do dia

"O poder raramente se revela naquilo que entrega, mas quase sempre naquilo que retém. Na geometria invisível das relações humanas, muitos celebram a honra do cargo, do favor ou da conquista, sem perceber que, por vezes, receberam apenas a forma, enquanto a substância permanece cuidadosamente guardada por outras mãos. Como nos ensinaram Sócrates e Platão, a verdadeira liberdade não está em ocupar espaços concedidos, mas em compreender quem, de fato, define as regras do jogo."

Crônica nº 7 Crônicas Trabalhistas

Entre o Grito do Gol e o Silêncio das Desigualdades: o que está em jogo no Brasil de 2026?

3 min de leitura
25 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Dizia Nelson Rodrigues, com aquela sua ironia cirúrgica e dramática, que o brasileiro, quando se veste de verde e amarelo, deixa de ser um "vira-lata" para se tornar a "Pátria de Chuteiras". Mas se o "Profeta do Óbvio" estivesse circulando atualmente pelos corredores da política baiana ou observando o frenesi de um ano de Copa e Eleições, talvez acrescentasse: a pátria, além de chuteiras, anda precisando de um bom par de óculos para não confundir o drible do centroavante com o drible do orçamento.

É um capricho do destino, ou talvez uma ironia de algum demiurgo que cuida do calendário, que o ápice do nosso sentimento de soberania esportiva aconteça sempre poucos meses antes de decidirmos o nosso destino nas urnas.

Em junho, somos todos "Estrategistas" de boteco, escalando a seleção com a precisão de um Max Weber na busca da impessoalidade e da racionalidade na organização ou Peter Drucker e Michael Porter discutindo gestão.

Em outubro, voltamos a ser apenas meros e desiludidos eleitores tentando entender por que a "gestão de conflitos" na área técnica da seleção é muito mais eficiente do que na porta da escola pública ou no posto de saúde do bairro.

Como não nos lembrarmos dos belos momentos de Copas passadas. Em 1958, o Brasil descobriu que não era apenas o país do café, mas o país de Pelé e Garrincha. Era o auge do Trabalhismo desenvolvimentista de Getúlio Vargas, onde a Petrobras era nossa e a taça também. Havia um projeto de nação que parecia correr no mesmo ritmo dos passes de Didi. Ali, a "Pátria de Chuteiras" e a "Pátria de Direitos" pareciam jogar no mesmo time.

A ironia, porém, reside na temporalidade. Existe uma espécie de "anestesia do hexa". Se ganhamos, o país mergulha numa euforia que faz o preço da cesta básica parecer um detalhe estatístico perto do brilho da taça. Se perdemos, o luto nacional é usado como cortina de fumaça para as manobras de última hora na calada da noite legislativa.

No Brasil, o futebol é, na verdade, a continuação da política por outros meios, com a diferença de que, no campo, o VAR funciona (às vezes), enquanto na política, o VAR costuma estar convenientemente "fora do ar".

Eu me pergunto: por que não aplicamos a mesma paixão do "Pacto pela Vitória" no nosso "Pacto pela Vida"? Por que aceitamos que Salvador lidere o ranking do medo no Atlas da Violência, mas não aceitamos um empate contra uma seleção de segunda linha?

O torcedor que abraça o vizinho de ideologia oposta quando sai o gol deveria ser o mesmo cidadão que exige que a escola de tempo integral seja um campo de "Cultura de Paz", e não um vestiário de conflitos.

Nesta Copa, vamos torcer. Mas vamos lembrar que, em outubro, o juiz apita o início do jogo onde o troféu não vai para a estante da CBF, mas para a escola, o posto de saúde, o prato de comida e para a carteira de trabalho de cada trabalhador e trabalhadora. Que a nossa Pátria aprenda, de uma vez por todas, a votar com a mesma precisão com que torce por um pênalti no último minuto: com os olhos no futuro e os pés bem fincados na realidade.

✦ Pensamento do dia

"A verdadeira soberania de um país não se mede apenas pelo brilho da taça, mas pela dignidade nos pés de quem caminha em paz pelas ruas. Que a nossa paixão por um gol de placa em junho seja a mesma que exige uma eleição de placa em outubro. Afinal, no grande jogo da cidadania, não existe VAR que corrija a falta de um projeto de nação."

Crônica nº 6 Crônicas Trabalhistas

Por Isso Vem, Entra na Roda com a Gente Também, Onde o Tijolo, o Trabalho e a Fé Edificam Esperança

2 min de leitura
23 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Dona Edna observava a rua por entre as grades da janela de sua casa, no pequeno município de Irajuba/Ba, que tem apenas 6.232 habitantes. Desse ponto de vista, ela contempla o novo Colégio de Tempo Integral Professor Isaias Aleixo, uma estrutura imponente, moderna, que custou milhões e brilha sob o sol do meio-dia.

O Colégio possui 11 salas de aula, uma quadra poliesportiva e laboratórios dedicados ao ensino integral, atendendo 330 estudantes em diversos níveis, incluindo Ensino Médio, EJA e Educação Profissional com cursos técnicos disponíveis.

É o "tijolo" do progresso, o investimento que a propaganda celebra efusivamente. Mas quando o sol se põe, Dona Edna vem hesitando em caminhar os 15 minutos que a separam da sua igreja, a Paróquia Santo Antônio, onde sempre buscou conforto espiritual.

Esse contraste é o retrato fiel da Bahia de 2026. Temos os prédios mais modernos do país, mas o Atlas da Violência ainda nos aponta como a capital do medo. O equilíbrio entre o avanço econômico e a garantia de segurança para toda a população permanece como um dos principais desafios estruturais discutidos por gestores públicos, analistas e cidadãos.

Para nós, herdeiros do Trabalhismo, esse paradoxo dói. Brizola nos ensinou que a escola é o templo da cidadania. Darcy Ribeiro nos disse que paredes não educam sozinhas. Joviniano Neto escreveu que a Igreja é a depositária de princípios como solidariedade, fraternidade e o respeito à família, pilares comuns entre a fé e o bem-estar social pregado pelos Trabalhistas.

O Alinhamento da Esperança que proponho é justamente este: "levantar tijolos (a infraestrutura pública) com a fé e o trabalho (o capital social da comunidade) para transformar mentalidades e promover a inclusão social". O Trabalhismo do nosso tempo precisa ser a ponte entre esses dois mundos.

Segurança Pública não se faz apenas com a tinta da caneta, mas com a firmeza do diálogo e a inteligência da gestão. O cotidiano da Bahia não quer mais ser estatística de ranking negativo; quer ser a crônica de um povo que tem trabalho digno, voltou a ocupar as praças, que vê seus netos na escola e seus avós caminhando em paz.

✦ Pensamento do dia

"Por isso vem, entra na roda com a gente também. Você é muito importante. O trabalho de construir a 'Educação para a Gestão de Conflitos e Cultura de Paz' é o que nos move. É transdisciplinar, é humano, é urgente. Por isso vem, entra na roda com a gente também!"

Crônica nº 5 Crônicas Trabalhistas

Guardião da Memória e do Silêncio

2 min de leitura
21 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Estava eu, outro dia, no restaurante "La Napoletana", que fica próximo da sede do PDT, na Mouraria, acompanhado de meus correligionários, após uma reunião no partido onde discutimos sobre os rumos da política trabalhista na Bahia. Ao ocuparmos uma mesa, o "Chef" da Casa, Sr. Antônio, aproximou-se sugerindo a "Pizza Antônia", especialidade da casa criada pelo proprietário em homenagem à sua mãe.

O cheiro da massa se misturava com o sotaque carregado de "resenha". Na TV suspensa, Carlo Ancelotti tentava organizar o nosso time para o jogo contra a Seleção do Haiti. Em frente à nossa mesa, um cidadão com uma camisa da seleção brasileira gesticulava mais que o próprio técnico.

Sorri comigo mesmo, divagando num breve pensamento: No Brasil, o título de "técnico" é a profissão mais exercida sem diploma. Somos 200 milhões de estrategistas, prontos para demitir quem não entrega o milagre na próxima jogada.

Lembrei-me de uma conversa que tive recentemente com a minha Editora, que me propôs escrever sobre o "Guardião da Memória e do Silêncio". A reflexão que fiz com ela foi que quem guarda a memória e o silêncio não é aquele que se cala por omissão, mas aquele que observa o ruído das falsas promessas e prefere o silêncio da reflexão profunda, na certeza de que não se ganha nada sem estratégia.

Nós, brasileiros, precisamos aprender que nenhum messias, seja ele interno ou importado da Itália ou de Mar-a-Lago, vai resolver a fragilidade dos nossos times, sistemas bancários ou das nossas urnas por nós.

✦ Pensamento do dia

"Na Bahia, cedo a gente aprende que o sucesso é como o pôr do sol no Porto da Barra: lindo, mas passageiro; e o fracasso é como uma chuva de verão nas periferias: inunda, mas logo o sol aparece de novo. O segredo? Guardar a Memória e o Silêncio, mantendo o equilíbrio entre o sucesso e o fracasso."

Crônica nº 4 Crônicas Trabalhistas

O Cheiro do Café e a Verdade das Ruas

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18 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Entrar na comunidade do Bate-Facho, no bairro do Imbuí, em Salvador, Bahia, é um exercício de reencontro para mim. Não é uma visita de quem vem de fora, mas o caminhar de um vizinho que reconhece, em cada viela, a força e a resistência da nossa gente.

Esta comunidade representa um clássico exemplo de fronteira social e espacial em Salvador, sintetizando o fenômeno de forte segregação urbana, onde bolsões de pobreza coexistem em proximidade geográfica imediata com áreas de classes médias e altas.

O que poucas pessoas veem é que, dentro do Bate-Facho, o comércio é uma força que pulsa, movimentando milhões de reais anualmente na economia soteropolitana. Longe de ser apenas um espaço de carência, a comunidade é um polo econômico local.

Nessa quarta-feira fui tomar um cafezinho na lanchonete da Elisandra, que é mais do que um comércio. Esse espaço é um ponto de convergência onde a vida comunitária pulsa no ritmo das idas e vindas da vizinhança.

À minha volta, uma síntese da Bahia: crianças com olhos curiosos, jovens sedentos por oportunidades, adultos indo e vindo da labuta e idosos que carregam a memória do bairro. Foi então que meus olhos encontraram o senhor mais velho da comunidade do Bate-Facho — em seu corpo, ele ostentava com orgulho uma camisa de um projeto que desenvolvemos juntos, ali mesmo, em 2022.

Uma senhora, que passava apressada para os seus afazeres domésticos, aproximou-se e disse palavras que ecoam como um mandato: "Seu Justo, a gente precisa de gente nossa, que olhe por nós e que venha aqui sempre. Estamos cansados de quem só aparece em época de eleição, caçando voto e sumindo depois."

O Trabalhismo que acredito, inspirado em Leonel Brizola, é o de pé no chão. É o do compromisso daqueles que frequentam as lanchonetes, padarias, mercados e feiras locais, não para fazer cena, mas porque é onde a vida comunitária acontece.

✦ Pensamento do dia

"A política que não sente o cheiro do café na casa do trabalhador, não suja o sapato nas ruas enlameadas das periferias e não é solidária com os conflitos existenciais das pessoas é apenas um discurso vazio; a verdadeira política nasce da realidade concreta, fazendo com que a Cultura de Paz não seja apenas um conceito abstrato, mas uma prática diária de justiça social."

Crônica nº 3 Crônicas Trabalhistas

A Vinha de Nabote em Tempos Modernos

2 min de leitura
16 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

"Guarde-me, o Senhor, de que eu te dê a herança de meus pais." — 1 Reis 21:3

Há momentos na vida de uma comunidade em que os fatos concretos deixam de ser apenas acontecimentos locais e passam a revelar algo muito maior sobre a natureza humana, sobre o exercício do poder e sobre o permanente conflito entre autoridade legítima e abuso institucional.

Foi exatamente isso que se viu em recente episódio ocorrido numa pequena comunidade religiosa, quando houve uma tentativa de realizar uma assembleia extraordinária em circunstâncias que suscitam graves questionamentos jurídicos, eclesiásticos e morais.

No centro dessa controvérsia encontra-se um patrimônio de propriedade da pequena comunidade, em excelente localização de classe média, com forte valorização imobiliária, fruto de sua história, do esforço coletivo e da fidelidade dos membros que construíram não apenas um patrimônio material, mas um legado institucional e espiritual.

Enquanto estava participando da reunião em que se tratou dessa questão, inevitavelmente me veio à mente um dos episódios mais dramáticos das Escrituras: a história da "Vinha de Nabote", relatada em 1 Reis 21, em que o rei Acabe desejava a propriedade de Nabote.

A "assembleia geral extraordinária" não aconteceu! Não aconteceu porque a comunidade se levantou. Porque homens e mulheres comuns compreenderam que instituições existem para proteger direitos, e não para servir como instrumentos de expropriação.

O Brasil enfrenta diariamente desafios semelhantes em outra escala. A defesa do patrimônio comunitário ensina-nos uma verdade constitucional profunda: toda autoridade só é legítima quando respeita os limites da lei.

Patrimônio é memória. Patrimônio é identidade. Patrimônio é soberania. E soberania nunca pode ser entregue a projetos construídos nas sombras do abuso de autoridade.

✦ Reflexão do dia

"Quando o poder abandona a Justiça e transforma autoridade em instrumento de apropriação, resistir em defesa do que pertence ao povo deixa de ser escolha e passa a ser dever moral para o estabelecimento da Paz."

Crônica nº 2 Crônicas Trabalhistas

O Cadeado Invisível das Estruturas Emocionais

2 min de leitura
14 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Era um domingo de manhã e eu estava indo para a Igreja Presbiteriana de Ipitanga quando, passando vagarosamente pela Av. Brg. Mário Epingaus, no Centro de Lauro de Freitas, presenciei uma cena que me fez pensar mais do que qualquer livro de exegese teológica.

Eram pouco mais de oito horas da manhã, chovia uma chuva fina e insistente. Estacionei o carro para tomar um cafezinho na padaria, quando vi uma senhora hesitar, por alguns segundos, antes de atravessar a rua em frente de sua casa. Aquela senhora parecia carregar a dor de toda uma comunidade no rosto.

Por um relance, percebi que ela olhava em direção a mim e, ao mesmo tempo, para os lados, apertando a bolsa contra o peito e, por fim, desistiu. Voltou para dentro do portão de sua residência e passou o cadeado, demonstrando pavor. A fome de pão foi menor que o banzo do medo.

Ali, naquele portão fechado antes do dia iniciar com um café da manhã dominical, eu vi o que as estatísticas do Índice de Progresso Social (IPS) 2026 tentam nos dizer com números frios. O medo da violência é um imposto silencioso que a gente paga com a própria vida.

Enquanto bebia meu cafezinho, pensei: "Como falar em Inteligência Organizacional ou Gestão Estratégica se a base da pirâmide, a segurança, está tremendo? É igual a construir uma casa na areia, como descrito na parábola contada por Jesus, em Mateus 7:24-27".

Minha conclusão mental sobre aquela situação foi clara: o progresso social não se mede apenas por PIB ou grandes obras. Mede-se pela liberdade que uma senhora tem de ir comprar pão para a sua família, sem achar que está cruzando uma zona de guerra.

✦ Reflexão do dia

"No ranking do progresso social, a gente só vai subir de degrau quando a Dona Maria puder sair de casa para comprar o pão, sem que isso seja um ato de heroísmo."

Crônica nº 1 Crônicas Trabalhistas

A Labuta de Estacionar a Vida na Paralela

2 min de leitura
12 de junho de 2026 Por Ricardo Justo

Lá estava eu, numa segunda-feira de maio, em plena Avenida Paralela, naquele sol de Salvador que não pede licença, só entra. O relógio marcava 12h45, o horário em que a cidade decide, coletivamente, que ninguém mais sai do lugar. À minha frente, um mar de luzes de freio vermelhas que pareciam rir da minha pressa de chegar ao meu compromisso das 15h00, onde eu daria uma palestra sobre "Gestão de Conflitos".

Olhei para o lado e vi um entregador de aplicativo, equilibrando uma mochila térmica gigante numa moto que parecia cansada de viver. Ele aproveitava o congestionamento travado para checar o celular. A agilidade dos dedos dele no brilho da tela contrastava com a imobilidade das rodas no asfalto. Pensei: "Ali está o resumo da nossa era". A tecnologia voa a 5G, mas o nosso direito de ir e vir ainda está preso em buracos e gargalos de planejamento urbano que parecem herança do século passado.

O motorista do ônibus ao lado abriu a janela e soltou um suspiro que carregava o peso de quem já tinha feito aquele trajeto pela terceira vez no dia. Dentro do coletivo, rostos colados ao vidro, olhos fixos em telas de celulares, buscando escapar da realidade de um trajeto que consome no mínimo 2 horas de vida para entregar mais do que 8 horas de serviço. É o trabalho antes do trabalho; a jornada invisível que o patrão não paga, mas que tem um enorme impacto na saúde mental.

Enquanto eu observava aquela sinfonia de buzinas e impaciência, percebi que o trânsito é o maior laboratório de gestão de conflitos que existe. É onde a nossa civilidade é testada por um "fechamento" indevido ou por uma vaga disputada no grito. Ali, no calor do asfalto, a "Cultura de Paz" que eu tanto defendo nos livros parece um conceito de outro planeta. Mas é justamente ali que ela se faz mais urgente.

Cheguei em meu compromisso 1 hora e meia depois. O organizador do evento já estava lá na entrada do prédio me esperando. Mas a maior lição do dia eu já tinha aprendido: no grande engarrafamento da vida, quem não cultiva a Cultura de Paz acaba virando apenas mais uma peça barulhenta na engrenagem dos conflitos cotidianos.

✦ Reflexão do dia

"Ao sair de casa, a gente não vai apenas para o trabalho, para a escola ou ao compromisso do dia; a gente atravessa uma odisseia diária para ter o privilégio de cansar."

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