Pensando sobre a pergunta que formulei para o artigo do Blog “JUSTAMENTE NEWS” de amanhã, sobre “Que tipo de sociedade estamos ajudando a construir?”, lembrei-me de uma manhã de março dos anos de 1970, quando iniciei meus estudos no Colégio José de Alencar, na Cidade de Deus, em Jacarepaguá, RJ.
Costumava me levantar bem cedo, antes que o bairro acordasse completamente, sempre despertado pela “Rádio Relógio do Rio de Janeiro” (580 AM), famosa por sua história única de transmitir a hora certa minuto a minuto com o clássico som de “tic-tac” e o famoso quadro de curiosidades “Você Sabia?”.
Naquela manhã de segunda-feira, com as nuvens anunciando “as águas de março fechando o verão”, estava indo comprar pão para o café da manhã da minha família, atribuição dada pelo meu pai desde que eu comecei a ir sozinho para a escola. No trajeto entre a minha casa e a “Padaria Del Rey”, sempre me deparava com um homem varrendo a rua em frente à sua casa.
Não era gari da prefeitura. Também não era dono de nenhum comércio. Vestia uma camiseta branca, um chapéu de palha antigo e empurrava a vassoura com uma paciência que hoje quase desapareceu do mundo. Toda a vizinhança o conhecia como “Seu Lamartine”.
O velho Lamartine varreu folhas secas, embalagens plásticas, sacos de lixo, copos descartáveis, algumas latas vazias e um pedaço de papelão encharcado pela chuva da noite anterior.
Naquela manhã, passei por ele e, movido pela curiosidade infantil, perguntei:
“Por que o senhor faz isso todos os dias, Seu Lamatine?”
Ele apoiou as duas mãos no cabo da vassoura, olhou para a rua e a pracinha ainda silenciosa e respondeu com a serenidade de quem já havia pensado naquela pergunta muitas vezes.
“Porque eu moro aqui!”
A resposta parecia abreviada. Mas não era. Ela continha uma intensa filosofia de vida.
Vivemos um tempo em que muita gente acredita morar apenas dentro das paredes da própria casa. Esquecemos que também moramos na rua por onde caminhamos, na escola onde nossos filhos aprendem, na praça onde os idosos conversam, na igreja onde praticamos a nossa fé, na feira onde compramos nosso alimento e até naquele terreno baldio que fingimos não enxergar.
Moramos, sobretudo, uns nos outros, parafraseando o filósofo grego Aristóteles, que disse: “os amigos verdadeiros são uma só alma vivendo em dois corpos diferentes”.
Talvez seja por isso que tantos conflitos sejam percebidos como insolúveis, levando-me a pensar que, de fato, parece que perdemos a capacidade de reconhecer pertencimento.
Quando uma escola vive cercada por violência, dizemos que o problema é da Secretaria de Educação. Quando um bairro se torna perigoso, pensamos que a responsabilidade é apenas das polícias militar e civil. Quando um lixão cresce na entrada da rua, imaginamos que é culpa do prefeito.
Mas a rua continua sendo nossa; a praça continua sendo nossa; a escola continua sendo nossa; o bairro continua sendo nosso; a cidade continua sendo nossa.
Hoje, enquanto caminhava para comprar pão na venda próxima da minha casa, na Rua Professor Jairo Simões, no Imbuí, Salvador, Bahia, lembrei-me do “Seu Lamartine”.
Pensei comigo sobre a lição que ele me deu sobre cuidar da minha rua. Talvez seja por isso que eu goste de chamar o lugar onde as pessoas vivem de “Microterritório de Identidade”, conceito que criei dialogando com o filósofo francês Michel Foucault, para quem o poder não está apenas no Estado ou nas leis, mas se espalha por toda a sociedade, bem como nas pequenas ações do dia a dia, nas escolas, nos hospitais, nos mercados, nas famílias e nas conversas coloquiais.
“Microterritórios de Identidade” não são apenas divisões geográficas. São espaços onde descobrimos quem somos.
Cada rua guarda histórias. Cada comunidade produz sua própria memória. Cada bairro desenvolve uma maneira muito particular de conviver, sofrer, celebrar e sonhar. É ali que a política deixa de ser discurso e passa a ter rosto.
Talvez seja esse o maior equívoco do nosso tempo: imaginar que desenvolvimento acontece apenas quando uma grande obra é inaugurada. Não. O desenvolvimento começa quando uma comunidade descobre que pode cuidar de si mesma.
Penso nisso quando observo o debate sobre segurança pública. Celebramos, com razão, cada vida preservada. Toda redução da violência merece reconhecimento. Mas nenhuma estatística será suficiente enquanto um menino continuar acreditando que a esquina lhe oferece mais futuro do que a escola.
A paz nunca nasce dentro de um boletim de ocorrência. Ela nasce muito antes. Nasce quando um professor percebe a tristeza escondida atrás do silêncio de um estudante. Nasce quando uma igreja decide abrir suas portas durante a semana para abrigar aqueles que estão perdendo a esperança. Nasce quando uma associação de moradores resolve conversar antes de acusar. Nasce quando uma família aprende novamente a jantar reunida.
É por isso que insisto tanto na Cultura de Paz. Não como um ideal distante, mas como uma prática cotidiana. Da mesma forma, acontece com aquilo que chamamos de lixo. Há uma estranha ironia nisso: jogamos fora exatamente aquilo que poderia voltar como energia, alimento e trabalho.
Chamamos de resíduo aquilo que a natureza jamais chamou. Na natureza não existe lixo. Existe transformação, conforme certa vez afirmou o cientista francês Antoine Lavoisier, ao criar a “Lei da Conservação das Massas”: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”
Talvez devêssemos aprender com ela:
●Um monte de restos orgânicos pode tornar-se biofertilizante.
●O gás que escapa silenciosamente dos resíduos pode iluminar casas.
●Aquilo que hoje polui ruas e rios pode amanhã gerar energia limpa para indústrias e desenvolvimento municipal.
A natureza parece repetir todos os dias uma lição que ainda resistimos em aprender: nada floresce quando a única resposta é descartar.
Penso que o mesmo acontece com as pessoas. Elas também não foram feitas para serem descartadas. Nem o jovem que abandonou a escola; nem o dependente químico; nem o policial que volta para casa sobrecarregado pelo peso de um turno inteiro; nem o agricultor que insiste em permanecer no sertão; nem a comunidade esquecida pelas políticas públicas.
Talvez seja justamente aí que o Novo Trabalhismo Humanista encontre sua razão de ser. Não apenas como um projeto político-econômico. Mas como uma ética do cuidado, como diz Leonardo Boff.
Uma política que compreende que investir em educação integral, fortalecer comunidades, recuperar áreas degradadas, transformar resíduos em riqueza e prevenir conflitos são diferentes maneiras de afirmar uma mesma verdade: toda pessoa merece condições dignas para desenvolver plenamente seus talentos.
Costumo chamar isso de “Tecnologia e Humanidades”, no sentido da ética da inovação. Não porque substitua máquinas. Mas porque ensina que a inteligência mais importante continua sendo aquela que aproxima pessoas.
E quando essa inteligência dialoga com a ciência, com a educação, com a gestão pública e com a participação comunitária, nasce aquilo que venho denominando de “Gestão Estratégica Transdisciplinar”. Não se trata apenas de administrar serviços. Trata-se de conectar saberes, instituições e pessoas em torno de um objetivo comum.
Enquanto essas ideias me atravessavam a mente, olhei para dentro de mim mesmo e vi uma cena que nunca saiu das minhas memórias: vi vários senhores daquela rua, chamada “Dona Berenice”, varrendo a porta de suas casas. Inclusive meu pai, Seu Josafá Oliveira, da casa nº 33.
Vi crianças uniformizadas indo para a escola. Vi adultos saindo de suas casas indo para o trabalho. Vi os bancos da praça sendo ocupados pelas pessoas idosas. Vi os passarinhos que até pareciam não perceber que alguém lhes havia preparado a manhã.
Foi vendo essa vida alegre nos rostos das pessoas e nas ruas das minhas memórias e esperanças que sorri, um sorriso de Cadinho!
A lição de hoje é que “há pessoas que transformam nossos bairros sem jamais ocupar um cargo público. E há gestores que passam uma vida inteira em gabinetes sem conseguir mudar uma única rua”. Talvez a diferença esteja numa simples frase, dita entre uma folha seca e outra:
“Porque eu moro aqui.”
Penso que toda boa política deveria começar exatamente assim.
“Uma sociedade começa a mudar quando deixa de perguntar quem é o responsável pelo problema e passa a perguntar quem está disposto a cuidar do lugar onde mora. A verdadeira política nasce quando o território deixa de ser apenas espaço geográfico e se transforma em comunidade de destino.”